Esqueça tudo o que você pensa que sabe sobre a culinária do Sertão. A chef Jucilene Melo deu uma aula de valorização dos ingredientes da caatinga, como palma, licuri e umbu, em sua participação no Adega Gourmet. O evento ocorreu na Lorena Conveniências esta terça-feira (11).

Havia uma leve inquietação no ar. Um mix de expectativa, de curiosidade. Os participantes do 6º jantar do Adega Gourmet 2016 sentavam à mesa e já eram recebidos com um “informativo” de explicações nutricionais.

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Muitos já poderiam ter lido a respeito do poder nutritivo da palma, do mandacaru, da algaroba; mas nenhum deles havia pensado nessas plantas da caatinga como ingredientes de um prato sofisticado. Como itens gastronomicamente viáveis. “Realizar um cardápio com ingredientes tão rústicos poderia facilmente levar Juci a apresentar pratos também rústicos e pouco sutis“, disse a administradora Solange Soares, resumindo o sentimento do público.

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A decoração de Gabi Cosentino, feito em parceria com Juci, foi um sucesso entre os convidados. Todos queriam levar as pedras para casa! haha

Cresci no Sertão, em meio a esses ingredientes, hoje conhecidos como plantas alimentícias não-convencionais, as PANCs. Recentemente meu interesse sobre elas cresceu e fiz uma intensa pesquisa. O resultado vocês vão ver hoje“, disse a cozinheira.

Foram noites sem dormir, horas no meio da mata branca, longas conversas com pesquisadores – algumas destas, que eu presenciei. Testes e mais testes de pratos. Um retorno às origens e resgate de sua história. E, ao final, um espetáculo para os sentidos. A culinária sertaneja, forjada e taxada como “de sobrevivência”, obrigatoriamente feita para dar “sustança” aos seus povos, ganhou delicadeza e técnica. “Juci matou a pau, superou todas as expectativas“, complementou Solange Soares.

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Ela quis mostrar o coração da gastronomia nordestina e sertaneja.

Acabou demonstrando um pedacinho de sua alma.

O menu de Jucilene Melo

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A entrada foi a PALMA FESTEIRA: massa de crepe ao urucum com picadinho de palma e queijo de cabra, com pipoquinha de carne de bode. Na decoração, flores de pata-de-vaca e pesto de licuri e hortelã. Não soube lidar com a delicadeza desta entrada, em que a proteína animal acabou sendo “um detalhe”.

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Para finalizar, infusão de quipá rosado – um líquido naturalmente adocicado e levemente adstringente, para limpar o paladar. Nunca imaginei, na minha vida, consumir tantos ingredientes “pesados”, preparados com tamanha leveza.

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O primeiro prato principal foi CASAMENTO PERFEITO: um arroz de moqueca de cari adoravelmente servido na ‘quenga’ de coco, com farofa crocante de licuri. Interessante ver, novamente, como um costumeiro protagonista dos pratos do Sertão – como é o caso do peixe cari – sendo tão “elemento” como o coco e a farofa.

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O XERÉM EMPALHADO despertou, em mim, memórias vivas da infância em São José do Egito, localizada no Sertão do Pajeú. Isso porque o xerém, assim como os pratos à base de milho, é forte representante da culinária clássica sertaneja. Mas o preparo de Juci despiu o prato de sua característica rústica. Preparado em moquém de folha de bananeira, a receita levava taioba e carne de porco. Sobre elas, flores de beldroega (não estavam nesta foto). Como se o food design já não estivesse perfeito, ela ainda serviu o delicioso prato com vinagrete de maxixe. Só que dentro da cabacinha. <3

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Para sobremesa, a MATA-FOME AMOSTRADA. O cheesecake, ou tortinha (como a chef preferiu chamar) tinha base de algaroba e, por cima, mousse de umbu. No topo, um crocante doce de coroa de frade, brotinhos de umbuzeiro e frutos da coroa de frade. Sem medo de ser feliz, Juci ainda jogou mel de algaroba pela sobremesa. Amostrada, mesmo! Cabe ressaltar a sutileza do mousse e da sintonia perfeita entre os ingredientes.

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Ao final do jantar, Juci serviu um café torrado com rapadura – num processo acompanhado pela barista Geórgia Romero. O método caseiro é feito por sua família há gerações. “A torra de casa era mais escura, mas preferimos fazer uma torra média”, adicionou a chef.

O Que Vem Por Aí:

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O Adega Gourmet é um projeto da Lorena Conveniências, com parceria da Fazenda GrandValle e Luiz Carlos Moreira Odontologia Estética, além de oferecimento da Rio Sol. Este ano, o festival segue até 18 de outubro e tem um total de 7 jantares exclusivos para uma média de 30 pessoas. Os cardápios são elaborados a partir de produtos da loja e assinados por chefs renomados de Pernambuco. Além de Jucilene Melo, passaram pelo evento Gefferson Freire, Rafael Yamaguti, Geórgia Romero e Maria Augusta, além de Karyna Maranhão e Marcella Souto, ambas de Recife/PE.

A próxima é Ilka Polianna. Formada em Administração pela Faculdade Castro Alves, em Salvador/BA, a empreendedora sempre teve amor pela gastronomia, principalmente a regional. Quando criança acompanhava com admiração sua avó na cozinha rústica de sua propriedade rural, vendo-a fazer de forma artesanal queijos, doces e comidas derivadas do milho. Após especializações pelo Senac São Paulo, atua na gastronomia funcional com a sua empresa de refeições saudáveis Marmitando Light.

Quer tentar uma lista de espera? Ligue para a Lorena no telefone (87) 3861.9368!

Felicidade é meu sobrenome. 

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