Antes de começar a visitar São Luís, recebi alguns baldes de água fria quanto à gastronomia da cidade: fui informada de que o repertório era restrito e que eu iria me frustrar caso quisesse escrever sobre tudo no Terroir. Mas em minhas sucessivas idas, descobri diversas e deliciosas receitas únicas da região litorânea maranhense; mas que, infelizmente, não são valorizadas pelos próprios ludovicenses. Não há nem mesmo um interesse em revisitar ingredientes, indo além da forma clássica de servir.

“Isso ocorre em parte pelo preconceito com os produtos locais e pelo desinteresse cultural”, disse Linda Rodrigues, coordenadora do Grupo de Estudo e Pesquisa em Identidades Culturais da Gastronomia Maranhense – do curso de Hotelaria e Turismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). A matéria completa sobre essa percepção do grupo está aqui.

Uma breve introdução à gastronomia ludovicense

De antemão, há de se saber da importância do arroz e da mandioca/macaxeira na culinária local.

O cereal passou a ser cultivado no país por volta de 1745 e já no final do período colonial, passou a ser item de exportação. Como havia excedente de produção, foram criados vários pratos usando o ingrediente: arroz de toucinho, o arroz de jaçanã (marreca selvagem), o arroz com camarão e vinagreira, o arroz com caranguejo e arroz com carne de sol, conhecido no Piauí como Arroz Maria Isabel.

Já a mandioca – que também já foi “commodity” maranhense – pode ser consumida de infinitas formas e produz diversos derivados, como farinhas (mais caroçudinhas), aguardentes e bolos.

A seguir, veja as receitas que você não pode deixar provar caso queira conhecer a típica comida maranhense.

Cuxá

Arroz de Cuxá | Onde comer em São Luís

Molho feito à base das folhas da vinagreira (também conhecida como Agrião-de-guiné, Azedinha, Cururu-da-guiné, Graxa-de-estudante, Groselheira ou Hibisco). Este molho também pode acompanhar outras guarnições, como arroz branco e a farinha mais grossa maranhense. É ele quem dá o sabor ao Arroz de Cuxá, preparado com camarão seco salgado e pimenta-de-cheiro.

Onde comer: Cabana do Sol (na Av. Litorânea) e Cafofinho da Tia Dica (no Centro Histórico/Reviver).

Vatapá e Caruru

São os mesmos da Bahia, mas são considerados comidas típicas do São João.

Onde comer: Cafofinho da Tia Dica (no Centro Histórico/Reviver) e nas barracas dos arraiais de festa junina.

Juçara

Juçara / Açaí | Onde comer em São Luís

Para o ludovicense, juçara é apenas um outro nome para açaí. E nos mercados e feiras, é grosso e salgado; servido numa cuia com a farinha caroçuda da cidade e camarão frito. Mas fora do Maranhão, Juçara e Açaí são plantas de espécies diferentes, mas da família das arecaceaes. Os frutos tanto da juçara (euterpe edulis), quanto do açaí (euterpe oleracea) são muito parecidos, só que o fruto do açaizeiro tem mais polpa e a juçara é muito mais utilizada para a produção de palmito.

Onde comer: Casa das Tulhas (no Centro Histórico/Reviver).

Tiquira

Tiquira | | Onde comer em São Luís

Trata-de do aguardente maaaaais brasileiro, feito artesanalmente à base de mandioca. Sua coloração é lilás – conseguida através da fervura com folhas de tangerina. Não pegue as muito roxas, dizem que são aguardentes normais misturados a pigmentos industriais. Marcas como Guaaja fazem versões mais “gourmet”, sem cor.  Sua graduação alcoólica fica entre 36 a 54º GL – ou seja, foooorte que só a mulésta. Seu quase total desconhecimento no país se deve, segundo especialistas, a puro e simples preconceito: ela tem sido consumida historicamente pelas classes mais pobres, principalmente escravizados maranhenses.

Onde comprar: Na Casa das Tulhas (no Centro Histórico/Reviver), no Mercado Central (no Centro) ou em drinks do Ça-Vá Gastrobar (Av. dos Holandeses, bairro Olho d’Água).

Torta Maranhense

Torta maranhense | Onde comer em São Luís

É uma torta aerada, que não leva farinhas. Sua textura “fluffy”, com uma crocância ao fundo, é toda graças aos ovos batidos, batatas e camarões secos e salgados. Em vez do camarão, muitos usam peixe seco (ressecados em varais, sob o sol, assim com a carne de sol) ou caranguejo.

Onde comer: Restaurantes do Centro Histórico/Reviver.

Doces maranhenses

Doce de Espécie, de Alcântara | Onde comer em São Luís

Já falei do doce de espécie na matéria de Alcântara. De herança portuguesa, ele é feito com coco ralado bem fininho e adoçado, sobre uma base crocante de farinha de trigo. A iguaria é muito baratinha: você compra uma bandeja com 10 unidades por R$ 10 na cidade. Em São Luís, fica mais caro um pouquinho só.

Doces típicos | Onde comer em São Luís

Soube que os restaurantes e padarias mais tradicionais podem oferecer outros doces portugueses, como os olhos-de-sogra, quindins-de-iaiá, arrufos-de-sinhá, papos-de-anjo e canudos de baba-de-moça, mas não prestei atenção. Chamou-me mais atenção os sorvetes, cremes e geleias de frutas nativas como bacuri, buriti, murici, jenipapo, caju,, cupuaçu, jaca etc. Também fazer sucos com essas mesmas frutinhas. Nos doces de rua, falam muito de um tal de “derresol” – uma cocada quebra-queixo. Mas não vi vendendo.

Onde comprar: Na Casa das Tulhas (no Centro Histórico/Reviver) ou no Mercado Central (no Centro).

Peixe no óleo ou azeite de coco babaçu

Na verdade, o foco aqui é o coco babaçu, extraído de palmeiras das mata dos cocais – região de floresta pré-amazônica que ocupa aproximadamente 10 milhões de hectares no Maranhão (que concentra 70% do babaçu do mundo). Há mais de 100 anos, mulheres – as quebradeiras de coco babaçu – passaram a extrair as amêndoas da palmeira para venda. Atualmente 300 mil mães de comunidades rurais sustentam suas famílias com a atividade. Algumas passaram a produzir o óleo e se unir em cooperativas, e cada vez mais o produto vem ganhando status gastronômico. Atualmente algumas casas utilizam o óleo (extraído a frio) ou o azeite (extraído por prensagem pós torragem) para preparos fritos, ensopados ou moquecas de peixe. O aroma é acentuado e o sabor é único.

Onde comer: Na Casa das Tulhas (no Centro Histórico/Reviver).

Restaurantes e bares de São Luís que eu fui e recomendo:

Bares e restaurantes onde comer em São Luís

  1. Cafofinho da Tia Dica: Melhor custo-benefício em comidas típicas e vivência do Centro Histórico. Amor verdadeiro. Peça a pescada dourada com molho de champagne e arroz soltinho de castanha, ou o Camarão à Moda do Cafofo, preparado na chapa. (Clique aqui para chegar até o Cafofinho)
  2. L’Apero: Pé na areia, música eletrônica ao vivo com DJs locais, caipiroskas a R$ 13 e frutos do mar preparados deliciosamente, como o tempurá de frutos do mar (R$ 54) em mini-cestinhas com geleia rústica de pimenta! (Clique aqui para chegar até o L’Apero)
  3. Mokai: Burgers absurdos, comida japonesa de fusão, sobremesas #foodporn em uma estrutura de containers. Os preços são salgados, mas as comidas são saborosas e aos fins de semana, sempre tem DJ tocando. (Clique aqui para chegar ao Mokai)
  4. Cabana do Sol: Carnes variadas, pequeno menu regional, mas uma estrutura e atendimento que ganham de todos os outros. (Clique aqui para chegar até o Cabana do Sol)
  5. Restaurante Frango de Ouro: Coloquei na lista pela ousadia de criar receitas que só são servidas ali. Comecemos pelo “batipuru”: um cozido que leva quiabo, pimentas, vinagreira, tomate e cebola, além de camarão seco. O prato foi criado há menos de 50 anos por Alderico Machado, dono do estabelecimento, inspirado pela sua terra – Caxias/MA. “Bati” é alusivo às batidas no preparo com a vinagreira, e “puru” vem de Itapecuru – rio que banha a cidade. E o prato que leva o nome da casa: cortes de frango empanados com queijo parmesão ralado (R$ 110). Serve 4 pessoas fácil e vem acompanhado de arroz (pedimos o Maria Isabel), vinagrete, farofa e seleta de legumes. (Clique aqui para chegar ao Frango de Ouro)
  6. Bar do Leo: Este só quem visitou foi Fábio, mas pelas fotos que ele me mandou, eu recomendo fácil. Amado por jornalistas, poetas e artistas da cidade, fica dentro do Mercado do Vinhais e é um “museu” repleto de objetos antigos, vinis e CDs. Além da decoração, a trilha sonora é um atrativo à parte: “De Dick Varney a Flávio Venturine, passando por Gonzaguinha e Bach”. Não tem comida típica, mas algumas comidinhas de boteco.(Clique para chegar ao Bar do Leo)
  7. Casa das Dunas: Sempre tem shows legais na casa, inclusive de bandas de reggae. O melhor é a localização: fica numa imensa duna de areia à de frente para o mar na Av. Litorânea, com vista panorâmica. (Clique para chegar).
  8. Ça-Vá Gastrobar: Bistrô pequeno por fora e de cardápio de grande qualidade. Para casais que buscam algo mais romântico e, mesmo assim, descolado. Tem matéria completa sobre o Ça-Vá Gastrobar aqui.
  9. Kibe & Cia: Apenas A-OPÇÃO para quem quer comida árabe de verdade.  (Clique para chegar ao Kibe & Cia).

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