Mais conhecida comunidade de remanescentes quilombolas de Pernambuco, Conceição das Crioulas é uma localidade liderada por mulheres negras a 42 km do centro urbano de Salgueiro/PE. Lá, a luta pela valorização de sua história também influencia a culinária local.

Em viagem do Jornadas Fotográficas do Vale do São Francisco no último domingo (16), fui recebida junto aos meus amigos jornadeiros pelo diretor de Turismo da Prefeitura salgueirense, Rilmar Cantarelli e pela líder comunitária e professora Maria de Lourdes da Silva, a Lourdinha.

Além de conhecermos os parques arqueológicos da localidade – com fósseis de animais e pinturas rupestres descobertos em 1993 – fomos levados até o Mercado Público, onde um almoço estava sendo organizado por Valdeci Maria da Silva, coordenadora da Associação Quilombola de Conceição das Crioulas (AQCC).

DSC_0326-3

Ela conta que o Mugunzá Salgado – também conhecido como Pintado no Nordeste – é a comida mais tradicional do local, servida em eventos caseiros e até mesmo nas festas religiosas. Feito em panela de barro elaborada pelos artesãos da localidade e com milho cultivado na região; feijão de corda; carne de sol; costela de boi; linguiça e charque; o prato com caldo fino e saboroso lembra uma feijoada e garante disposição. Segundo Cantarelli, a pedida é saboreá-lo com uma cachaça enraizada, mas infelizmente a bebida estava em falta este fim de semana. 🙁

gifmugunzapintado

Lá eu esperava encontrar mais produtos à base de umbu – como geleias, a umbuzada (umbu batido com leite e açúcar) ou até mesmo o doce de cafofa, feito com a raiz da planta. Os frutos não têm uma gestão de cultivo, são colhidos dos pés espalhados por sítios de toda a área. Mas devido a questões de viabilidade econômica, a produção hoje se restringe à polpa da fruta – elaborada em uma cozinha comunitária nos fundos da AQCC e direcionada, em sua grande parte, para a merenda escolar de Salgueiro através do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).

_MG_9410-1

Com a seca assolando a comunidade há 4 anos, os moradores têm buscado novas formas de geração de renda através da agricultura e uma das alternativas, segundo Lourdinha, está também espalhada nas matas brancas da caatinga local: um doce de xique-xique. “Comecei a fazer experimentos com o fruto do quipá (espécie de cacto), fazendo um mousse. Um visitante estrangeiro veio à região e junto conosco, fez mais experimentos com outros cactos e chegamos à receita do doce”, contou.

A receita nasceu intuitivamente: “no mato, separei os melhores xique-xiques, abri no meio e fui tirando o miolo com cuidado. Em casa, cortei como se fosse um mamão e lavei para tirar a “baba”. Na panela coloquei pouco açúcar, para que o gosto do cacto se destacasse e adicionei um coco liquidificado, com a própria água. Cozinhei por umas três horas, como se fosse também um doce de mamão”, contou a Lourdinha.

DSC_0321-2

Diferente da cocada feita pela Associação de Agricultores e Agricultoras Familiares do Assentamento Mandacaru, em Petrolina – o doce é verde-claro e ainda mantém um pouco da liga da planta, com o coco dando crocância e o xique-xique com uma textura quase gelatinosa.

Agora a líder comunitária quer levar a iguaria à Universidade. “Quero fazer um mestrado estudando a viabilidade econômica de produtos feitos com cactos e, em setembro, devo levar para uma degustação acadêmica no Recife”, contou

Conceição das Crioulas

DSC_0188-1

Contam os mais velhos que no início do século XIX, seis mulheres negras que conquistaram a liberdade chegaram à região e fixaram moradia. Elas arrendaram uma área de terra de três léguas (1 légua = 6 km) em quadra que, aos poucos, foram comprando graças ao trabalho de produção e fiação do algodão que vendiam para a cidade de Flores/PE. Parte da área adquirida foi doada para a construção de uma capela, onde colocaram a imagem de Nossa Senhora da Conceição. Em homenagem à santa, a comunidade passou a se chamar Conceição das Crioulas.

O despertar para a necessidade de promover o desenvolvimento da comunidade, fortalecer a sua organização política e sua identidade étnica e cultural, além de lutar pela causa quilombola, veio só no fim do século XX. Em 2000, foi fundada a Associação Quilombola de Conceição das Crioulas (AQCC) e além da divulgação do artesanato – feito com imbira, fibras de caroá e barro – passaram a lutar pela real posse dos terrenos daquela região.

Uma batalha que começou em 1802 (quando a comunidade recebeu uma escritura dos primeiros m² por José Delgado, escrivão do cartório de Flores), e só encerrou em 22 de setembro de 2014, quando o Incra concedeu títulos de domínio de cinco imóveis rurais e aproximadamente 898 hectares passaram a compor, efetivamente, o patrimônio coletivo da comunidade, beneficiando 750 famílias. A titulação ocorreu mediante a outorga de título coletivo e pró-indiviso à comunidade, em nome da AQCC.

O que você achou deste assunto? Comente!

Comentários