Começou nesta quarta-feira (1º), em Petrolina, a mostra gastronômica Cena Gastrô 2018. Realizada pela cafeteria Café de Bule dentro do festival de artes Aldeia do Velho Chico, a iniciativa propõe uma experiência continuada, através do paladar, de diversos espetáculos e oficinas da programação.

Nesta edição, a chef confeiteira e barista Geórgia Romero se inspirou em sete atrações  do evento artístico-cultural para elaborar seu cardápio. “Trata-se de uma brincadeira com os elementos das encenações e que se traduzem em ingredientes e receitas. Na montagem de cada opção, busco contemplar as cidades e culturas gastronômicas de origem das montagens, como Mato Grosso, do Pará, São Paulo… Então temos doces, salgados e até uma bebida, todos pensados no nosso espaço: uma cafeteria”, alega a profissional.

Outra preocupação da chef é sair do lugar-comum. “Gosto de  trazer o que não é tão popular. Este ano me inspirei na Índia para agregar as samosas e na França, com o bisque. Mas tudo com preços acessíveis, atrativos, para que as pessoas experimentem um, dois ou até todos os itens desse cardápio especial”, indicou.

O Cena Gastrô 2018 ficará disponível até 11 de agosto, todos os dias, das 14h às 22h. A cada prato saboreado, o comensal ganha um ingresso para curtir a atração-inspiração.

O cardápio do Cena Gastrô 2018 (comentado pelo Café de Bule)

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FARINHA COM AÇÚCAR (R$15,70) Ao se juntar farinha e açúcar, infinitas e maravilhosas possibilidades se desenham. É tão bom como o sonho da união dos povos, das raças. Bolo, biscoito, pão… Esta sobremesa é um pouco de cada uma dessas possibilidades. Finas camadas de massa (farinha com açúcar) negra de forte cacau baiano e aroma de café da Chapada se alternam com um espesso doce de leite meio salgado, em sucessivas camadas. Você vai sentir também um potente gosto sagrado de Efó, uma farinha doce cheia de sustança, a força dos Orixás, delicadamente espalhada como areia, base, chão. A decoração, verticalizada num pé de moleque artesanal de amendoim e açúcar dos engenhos, relembra a história sofrida de um povo escravizado e oprimido que precisa urgentemente ser ressignificado social, profissional, política e artisticamente.

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EU TE AVISEI (R$ 14 A versão intimista e R$ 19,50 a versão exuberante) Vou avisar a vocês, tem duas versões: a primeira é intimista, tradicional, intensa, quieta, simples, silenciosa. Uma rabanada bem tostada, suculenta por dentro, crocante por fora, acompanhada de geleia de fruta. A segunda versão é da exuberância, da explosão, para quem não está nem aí para as convenções, para quem quer mesmo quebrar regras. A mesma rabanada transformada, corajosa, cheia de alegorias saborosas: sorvete, calda, frutas, castanha triturada, chocolate em gota. Escolha a sua melhor versão e vamos pra vida!

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MULHERES INDÍGENAS SEMPRE FORAM SAGRADAS  (R$ 11,50) Kombucha é uma bebida milenar, de origem chinesa, feita a partir de um chá com fermentação controlada. Por esse motivo, apresenta uma gaseificação natural como um refrigerante. O kombucha de hibisco com limão siciliano e gelo de morangos não é apenas saudável, azedinho, refrescante, marcante. É simplesmente delicioso! Os nossos índios são autoridade quando o assunto é bebida fermentada. E eles, aliás, ELAS (porque reza a tradição que só as mulheres podem prepará-los) utilizam, por exemplo, a mandioca para fazer o caxiri, que tem ainda lugar cativo nas tradicionais comemorações indígenas. É por essa e outras merecidas razões que as mulheres indígenas (e todas as outras também) sempre foram, são e serão sagradas.

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ESTELITA (R$ 9,50) Não é fácil ser o que somos ou o que queremos ser. O grande barato é a busca mesmo. Barato? Ops… mas Estelita é uma formiguinha! E ela está na busca da felicidade em todas as suas formas possíveis! E como formigas adoram doces…. Então demos a Estelita um formato de doce, porque é impossível não encontrar felicidade num doce, não é? Um cake pop de brigadeiro coberto com chocolate ao leite.

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CALDEIRÃO DE AFRODITE (R$ 21,90) Na mitologia grega Afrodite é a deusa do amor, da beleza, da fertilidade e da sexualidade; responsável pela perpetuação da vida, dos prazeres e da alegria. Faz tempo que a mulher é apenas isso (ou até quando?). Mãe de Eros (erótico). Nosso caldeirão traz um bisque fumegante de variados frutos do mar. De Afrodite, são afrodisíacos potentes. É da mitologia, mas isso é ou não um mito? Apenas prove. E prove se é mito ou mentira.

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FAUNA (R$17,80) Na selva urbana, avançar o sinal é desconstruir as identidades individuais e coletivas. Olhar o outro. Compartilhar mais. Acolher mais. E se o assunto é compartilhar, a comida é nosso acesso de interação, nosso afeto. Divida essa pequena porção de samosas indianas com alguém bom de conversar. Esses crocantes pasteizinhos vêm acompanhados de dois molhos: um chutney de manga verde e um molho de iogurte, hortelã e limão. Carnívoros e vegetarianos estão contemplados. A dualidade é do humano e a diversidade é bem-vinda. Aproveitem-se sem moderação.

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LUZIR É NEGRO (R$14,90) Luzir é brilhar com luz própria. E isso é ser negro. Mais uma vez (e sempre, porque infelizmente ainda é necessário) a discriminação grita aos nossos olhos, ouvidos, boca e, agora, o assunto chega ao estômago. Um entremet de chocolate puro, base sucrê de chocolate, ganache de chocolate meio amargo, pois a doçura se perde no amargo racismo. Quase tudo negro-chocolate, se não fosse um coulli de morango que escorre como o sangue de nossas veias, porque somos todos assim, iguais por baixo da pele. No topo, uma coroa de chocolate dourado exalta a saga desse povo resistente, que segue a luta muitas vezes graças à força da religiosidade, à força das matriarcas guerreiras com afeto e à predisposição de brilhar.

O Aldeia do Velho Chico 2018

Com o tema “#SuaPartePartedeVocê”, o Festival propõe uma reflexão sobre a política da arte nas suas funções sociais. A grade de atrações é composta por artistas que abordam questões de gênero, questões étnicas, entre outras. “Queremos trazer aos públicos a ideia de que a política é construída e ressignificada a partir da ação individual de cada um, que se soma a de outros na coletividade”, explica o instrutor de atividades artísticas do Sesc Petrolina, André Vitor Brandão.

O tema apresenta propositalmente uma hashtag tendo em vista que no mundo virtual a hashtag funciona como lugar de ajuntamento, onde assuntos e pessoas podem ser agrupados e conectados; além de lugar de protesto e contestação. Veja aqui a programação completa do festival. 

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