Eu tinha 13 anos quando fui ao Parque Nacional Serra da Capivara. Dezessete anos depois, voltei a este que é um dos mais incríveis Patrimônios Culturais da Humanidade. Senti-me tão deslumbrada como se eu estivesse lá, ainda adolescente, pela primeira vez.

Mas tão impressionante quanto suas atrações ecoturísticas e arqueológicas, é o desdém do brasileiro por esta preciosidade histórica. São menos de 20 mil visitantes por ano e, em agosto de 2016, o parque quase fecha após corte nos recursos enviados pela Petrobrás: dos R$ 450 mil necessários ao funcionamento pleno do complexo, a gestão estava contando com menos de R$ 250 mil. Infelizmente, as notícias de que o Parque superou sua crise não foram tão massificadas e muita gente, até hoje, acha que tudo está fechado ou que não vale a pena visitar.

Muito pelo contrário: o Parque está aberto e funcionando plenamente!

Um resumão sobre a Serra da Capivara

O Parque Nacional Serra da Capivara fica no sul do Piauí e tem 135 mil hectares de extensão em uma área de caatinga arbustiva e arbórea, sobre duas formações geológicas. Abrange os municípios de São Raimundo Nonato, Canto do Buriti, Coronel José Dias e São João do Piauí. Desde o início das pesquisas iniciadas pela arqueóloga franco-brasileira Niède Guidon, na década de 70, até os dias atuais, foram catalogados mais de mil sítios arqueológicos pré-históricos. Destes, há cerca de 200 abertos à visitação.

Os achados são de extrema importância para a arqueologia pois colocaram em dúvida a teoria de que o homem iniciou o povoamento das Américas pelo Estreito de Bering – entre a Sibéria (RUS) e o Alaska (EUA). A teoria atual é de que os nossos antepassados atravessaram o Atlântico durante última Era do Gelo, quando o nível da água dos mares estava tão baixo com a glaciação que fez emergir pequenas ilhas entre os continentes.

Apesar de não terem sido achados ossos fossilizados de humanos (as condições do solo não permitiram a conservação), há artefatos e até mesmo fezes fossilizadas cujas bactérias não teriam sobrevivido às baixas temperaturas siberianas. Todas essas informações, em detalhes, foram repassadas pela guia de turismo Eliete, que é cientista da natureza formada pela Univasf e trabalhou nas escavações locais por anos.

Para além das artes rupestres, estão sítios históricos com casas de antigos maniçobeiros que habitaram o lugar e que viviam da coleta da maniçoba até meados do século XX. Porém hoje em dia,  achar pés de maniçoba é complicado. A guia Eliete achou um e, olha só: dá para comer a castanha/coquinho da árvore.

Os ingressos para visitação dos sítios custam R$ 25,00, com desconto de 50% para os brasileiros – R$ 12,50. Idosos acima de 60 anos e crianças abaixo de 12 anos têm isenção no pagamento.

A guiagem é OBRIGATÓRIA. Para contatar a maravilhosa guia Eliete Sousa, ligue (89) 9 8126 1435 ou (89) 9 9469 5455. O valor é de R$ 150/dia, podendo ser dividido em até 8 pessoas. Ela também faz passeios com carro próprio. Neste caso, o pacote sobre para R$ 350/dia para até 4 pessoas.  

A seguir, veja um roteiro de 2 dias pelo melhor que a Serra da Capivara tem a oferecer em hospedagem, trilhas, rotas, atrativos turísticos e onde comer.

DIA 01 | Serra Branca e a Trilha dos Maniçobeiros; Serra Vermelha e o Baixão das Andorinhas

Com o Palio 1.0 de Fabio (vale ressaltar!), fizemos todas as trilhas a seguir sem muitas dificuldades. Antes de sairmos do Albergue, recebemos um kit com sanduíches, roscas doces (massa típica do Piauí), água mineral e suquinhos de caixinha. Levamos, ainda, mais água, castanhas, salgadinhos e barras de cereal. Nunca se sabe, né? Para cada pessoa, leve 4 garrafinhas de água no mínimo!

Iniciamos o dia 1 pelo Circuito Serra Branca, a 33 km do centro de São Raimundo Nonato. A guia Eliete preparou um mix do melhor da arte rupestre e da Trilha dos Maniçobeiros, que ocuparam a região para extrair de látex da maniçoba.

Pegamos a estrada e chegamos às guaridas dos sítios; que têm, pelo menos, duas funcionárias. Elas ficam encarregadas de registrar os visitantes, que devem assinar um termo de responsabilidade. Entre as indicações: nada de jogar lixo, fazer barulho, sempre seguir o guia etc. A partir daí, entramos de vez no Parque.

Entre a casa do João Sabino, um dos mais importantes maniçobeiros da região, e a Toca do Caboclo – com artes rupestres de até 12 mil anos das Tradições Nordeste e Agreste, passamos por essa vista panorâmica da caatinga.

Depois dela, passamos pela Toca do João Sabino e no Olho d’Água, onde enchemos nossas garrafinhas com a mais pura água mineral de fonte nordestina. Logo após esse momento, almoçamos nossos lanchinhos em frente à Toca do Pinga do Boi, um abrigo sob um paredão de 50 metros de altura, repleto de artes rupestres.

Vimos mais alguns sítios e partimos, já por volta das 16h, para a Serra Vermelha – onde visitamos a Toca do João Daniel/Baixão das Andorinhas. Essa parada é obrigatória por quatro motivos:

  1. A vista é linda, com vocês viram <3;
  2. É um dos únicos locais do parque em que há visíveis representações de mulheres com seios. São feitas na Tradição Nordeste em cores vermelha, amarela e branca;
  3. Por volta das 17h30, andorinhas pretas fazem voos rasantes que parecem cortar o ar. Não tem foto porque não conseguimos: é muito rápido!;
  4. Conseguimos ver um Urubu Rei sobrevoando a área. Para quem curte fotografia de natureza…

As andorinhas descem por aqui 🙂

Dia 02 | Lojinha de Cerâmica, Museu do Homem Americano e Boqueirão da Pedra Furada

Fornos a gás, espaço aberto e diversos artesões formados ali mesmo trabalhando no design e no acabamento das peças de cerâmica, revendidas para todo o Brasil e inclusive para o exterior. Na Loja da Fábrica de Cerâmica Serra da Capivara, em Coronel José Dias (PI), o preço não é tããão barato e algumas peças com partes quebradas ou com cortes de forno são vendidas com desconto. Mas vale a pena levar para casa e para os amigos uma lembrança do local.

 

A cerâmica atual – bem feita e com acabamentos de arte rupestre – não tem nenhuma conexão direta com os antepassados do homem americano, exceto pelo costume que as populações tinham de enterrar seus familiares em urnas de barro. O projeto foi uma iniciativa desenvolvida por Niède Guidon para empoderar financeiramente a população local.

O Museu do Homem Americano, em São Raimundo Nonato (PI), foi a segunda parada do dia. Criado com o objetivo de abrigar o acervo arqueológico do Parque e divulgar novidades das pesquisas, possui instalações multimídia projetadas pela mesma equipe do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, e o Cais do Sertão, em Recife.

Sua exposição permanente apresenta a ocupação pré-histórica da região e a interação das populações humanas com seu ambiente. No mesmo espaço, há ainda uma lojinha com souvenires e uma exposição fotográfica das primeiras expedições arqueológicas e da cidade de São Raimundo Nonato nas décadas de 70 e 80.

Por fim, o maravilhoso Boqueirão da Pedra Furada na Serra Talhada – onde foram feitas as primeiras escavações. As datações neste sítio atestam a presença do homem pré-histórico no continente americano há pelo menos 48.000 anos. É lá que está a arte rupestre que representa o Parque e, ao seu lado, uma pintura que remete a um beijo.

O percurso inclui a formação geológica da Pedra Furada, símbolo do local; o Sítio do Meio; o Baixão da Pedra Furada (BPF), onde se adentra ao cânion formado por formações areníticas e o Mirante Alto Pedra Furada.

Ah, o Mirante… O canyon mais bonito do parque!

Lá ficamos até o por do sol, quando fomos surpreendidos por macacos-prego que faziam seu trajeto diário até o topo dos paredões. Alguns não ficaram muito felizes com nossa presença… #tenso!

Já perto da noite, descemos novamente para o Boqueirão. Por 40 minutos, luzes iluminam o paredão e você consegue fotos como esta:

Digaê, véi?

Quando ir à Serra da Capivara?

Para ver uma caatinga mais verdinha, sugiro ir entre janeiro e abril – quando o sul do Piauí está no “inverno” chuvoso. Entre maio e julho, a vegetação adquire colorações vermelhas, amarelas e marrons, anunciado a perda das folhas. Foi isso que vi nas trilhas mais altas e, sendo bem sincera, é uma das épocas mais bonitas. De agosto a dezembro a maior parte da vegetação está sem as folhas, e é a época mais quente do ano. Portanto se você não está habituado a altas temperaturas… pense bem antes de agendar sua viagem para este período.

Recomendações de roupa:

Você não precisa de uniforme de trilheiro para fazer os passeios e circuitos que eu fiz. Tendo cuidado com urtiga e cansanção, dá pra ir de tênis, camisa com proteção UVA, óculos de sol, boné e uma legging de boas. No segundo dia, com trilhas mais leves, usei o mesmo tênis, legging de academia, camiseta e viseira. Deu tudo certo! 🙂

Como ir/chegar à Serra da Capivara saindo de Petrolina (PE)?

O pontinho final na Serra da Capivara é o município de Coronel José Dias (PI), onde nos hospedamos.

Em 2004, um período chuvoso danificou um trecho de 40 km da BA-235, tornando a principal via para a Serra da Capivara um tanto cansativa. Atualmente a melhor opção é ir pela rodovia BR-407, passando por Afrânio/PE, e após chegar no Posto Fiscal de Pipocas no Piauí tomar a estrada para Queimada Nova, até chegar em São João do Piaui/PI. Neste ponto, segue pela rodovia BR-020 sentido São Raimundo Nonato/PI, podendo acessar-se o Parque Nacional também por Coronel José Dias/PI – onde acabei me hospedando.

Se você estiver sem carro, vá de transporte alternativo. Fui com o Neto da Spin, que veio me buscar em casa e me deixou no meu destino. Paguei R$ 70 reais por trecho e a viagem foi, na maior parte do tempo, tranquila. Há poucos trechos com buracos e a chegada é por volta das 19h30 – mas no meu dia houve um pequeno atraso e cheguei 1h depois. O Neto faz este caminho às segundas, quartas e sextas, com saída às 14h.

Contato Neto da Spin:  (89) 9 8102 1291 (Vivo) | (89) 9 9975 9175 (Tim).

Onde se hospedar na Serra da Capivara?

Como procurávamos contato com a natureza, quietude e conforto, não vimos vantagem em ficar em São Raimundo Nonato (PI). Recebemos, então, a dica de ficar no Albergue Serra da Capivara – localizada no Sítio Barreirinho, município de Coronel José Dias.

Que tal acordar todo dia cedinho dentro do Parque Nacional, entre paredões rochosos e com passarinhos cantando? E ali do lado acompanhar o artesões preparando a Cerâmica Capivara, revendida em todo o Brasil e até mesmo exportada para a Europa? E fazer refeições simples e regionais servidas nas cerâmicas preparadas ali mesmo?

Tem quartos tipo albergue e quatro camas, duplo com cama de solteiro e casal, e só com cama de casal. Tem um frigobar bom, zero besourinhos e chuveiro quentinho; mas não tem TV, só no restaurante.

Pontos a serem observados: o tudo é pago em dinheiro, portanto se prepare. Nos quartos mais afastados do local onde é servido o café da manhã, o wifi não pega bem. É pra desligar mesmo do universo! Numa noite sem lua, leve um tripé e faça lindas fotos de estrelas!

Onde comer na Serra da Capivara?

Seguindo a indicação da nossa guia Eliete, fomos conhecer a Pizzaria do Paulinho e seu Calzone de Carneiro. Aparentemente, a carne do ovino é bastante típica na região e eu nem sabia. E pior: a fome era tanta que acabei não fazendo foto! SORRY! Só achei essa da web ao lado.

Este é o tamanho pequeno (pasmem), custa R$ 23 e dá fácil para duas pessoas. No recheio também tem um creme de queijo de coalho. Delicioso! Vale a pena ir no dia dos passeios pela Serra Branca!

No restante do tempo, nos alimentamos no próprio hotel – que tem um menu self service simples e gostoso, repleto de comidas da região.

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